A Harley Davidson do Brasil fez este concurso, dizendo:
Procura-se um motociclista para compor a equipe Harley‑Davidson em uma viagem dos sonhos pelo Brasil
E mais:
Acredita que possui o perfil ideal para a viagem?
Inscreva-se e envie um texto de até 10 linhas ou um vídeo de até 2 minutos explicando porque você deveria ser o selecionado para representar a Harley‑Davidson nesta viagem dos sonhos. Você poderá participar de uma viagem pelo Brasil pilotando uma Ultra Limited.
Ora essa, eu não apenas acredito, tenho a mais absoluta certeza que eu sou o cara ideal para isso! Então escrevi meu texto de até dez linhas. Pelos prazos dados, já era, não fui escolhido. Posers esses caras da Harley Davidson do Brasil que fizeram a escolha!
De todo modo, eis meu texto. Tudo muito clichê, mas, ei, a Harley Davidson é toda puro clichê. Apropriadíssimo, pois.
“Por que eu deveria ser escolhido para ser o motociclista nesta viagem dos sonhos da Harley-Davidson?”
Meus sonhos são feitos ao mesmo tempo do prazer da partida e da saudade de casa, de movimento e de permanência. De introspecção e de histórias para contar.
Meus sonhos são feitos das paisagens para se ver, dos cheiros dos caminhos, dos sabores das paradas, do contato com o couro e do som característico de um V2. Dos elementos e de impressões.
Meus sonhos são feitos de estradas e de vento, de explosões entre as pernas e de paz de espírito. Ampliação de limites. Liberdade.
Por que devo ser escolhido o motociclista desta viagem? Porque ela é dos sonhos. E eu vivo os meus sonhos!
Bem, eu curti! Dá até para fazer uma campanha de marketing com o texto. Pena que não me rendeu a viagem.
Uma coisa que sempre digo e que me parece sempre absolutamente incompreendida é que destacáveis são uma coisa fundamental a qualquer moto, conforme a necessidade do usuário.
Este vídeo curtinho mostra bem o que quero dizer. Pois é óbvio que sissy-bar (ou nada) é melhor, esteticamente, que o baú (realmente não tem jeito de isso ficar bonito, exceto se planejado para tal, como nas tourings - e mesmo assim...).
Mas a questão é: não é irremediável como uma cara feia. É apenas uma roupa horrorosa de trabalho que a gente troca rapidinho.
Meu amigos já estão tirando sarro porque a coisa fica feia. É feia, amigos, aquiesço. Mas olha, amigos, eu vi suas curtidas naquela rat bike horrorosa, vi suas curtidas naquelas customizações de gosto para lá de questionável... então menos, amigos, bem menos...
Ademais, o baú (em rack destacável) não é uma cara feia (o que é definitivo) nem uma barriga gorda (que exige um longo regime). É um uniforme de trabalho feio que se troca em cinco segundos. Porque o objetivo primeiro é o uso diário ao trabalho.
A propósito, eu detesto mochila nas costas. Fico incomodado demais. Aí carregava uma aranha para grudar a mochila no sissybar. Só que isso, em determinadas paradas, deixa a mochila vulnerável (ou a gente perde a paciência tirando e colocando arara). Mochila não, pois. Para colocar alforges destacáveis é preciso realocar setas. Eu acho as setas realocadas horríveis, e isso é um negócio definitivo. Alforges destacáveis não, pois. Alforges fixos nem pensar, muito menos aqueles destacáveis que precisam de afastadores fixos. Há algumas malas rígidas que poderiam servir. Mas eu acho todas feias. Feias e caras. Feio e caro não, pois. E há alguns baús mais quadrados e pequenos, como o da RK Police, que amenizariam bastante esse "visual motoboy". Mas são caros pacas. Aí não dá porque meu bolso não permite. Então fui nesse Pro Tork feinho mesmo por 75 conto. É feio, mas é barato. (E ainda penso em revestir de vinil para ficar ainda pouco menos "motoboy".)
Pensava também em viagens longas com esse treco. Mas isso eu ainda não sei. Acabou que ficou numa posição que não me dá apoio lombar (nem longe no rack de sissybar nem perto demais no rack de paralama). Isso, no fim, deixou o visual um pouco menos feio que eu esperava (eu esperava perto demais das costas no rack de paralama), mas faz o uso em viagens ser dificultado (sendo que a principal vantagem permanece a estanqueidade).
Ainda há uma solução que, caso eu decida por não usar o baú para viagens longas, pode ser interessante. Há um pequeno baú de bicicleta, baixo, fino e comprido, que, para uso só na cidade, vai diminuir em muito este "visual motoboy". Só que ele custa uns 200 conto (contra 75, lembrem-se).
Bem, agora é usar, ver qual é, e depois tomar as decisões que restam.
Por conta da pandemia e de um problema mecânico, estou sem rodar e sem muito a fazer em termos "motociclísticos". Mais por esta abstinência de moto que por qualquer outra coisa comecei a rever Sons of Anarchy.
O interessante é que passei a reparar em coisas que jamais teria reparado antes.
Por exemplo, há um episódio chamado "The Push". Foi traduzido como "A separação". Isso porque Jax força uma separação de Tara. Acontece, porém, que é a partir daí que os Sons se aproximam dos Mayans, que traficam heroína.
Bem, isso me chamaria pouca atenção se eu não curtisse "The Pusher", do Steppenwolf. Ora, "Born to be wild" é clichê e não está no seriado. "The Pusher" também não, mas esta música me informa que o "dealer" tem a erva do amor em suas mãos, enquanto o "pusher" é um monstro desalmado que só traz a morte.
Passei a ter muito respeito a tradutores, pois eles têm um trabalho bastante difícil e, mesmo que falhem aqui e ali, devem muito mais ser louvados que criticados. Mas... é óbvio que "The push" deveria ser "O tráfico".
Mais para frente há um episódio em que Juice, um "porto-riquenho do Queens", tenta se enforcar em consequência de um emaranhado de situações cuja principal razão é ele ser filho de um negro.
Então, enquanto ele, Juice, ou "Suco", se prepara para o ato, começa a tocar "Strange Fruit" (que fala sobre o estranho fruto de corpos negros pendentes de árvores no sul dos EUA) e o nome do episódio é “Fruit for the crows”.
Tudo óbvio. Mas é preciso olhos para ver. Hoje sei um pouco mais do que das outras vezes que vi. Só agora, na quarta visita à série, é que sou capaz de ver o óbvio.
E, além destas referências em alguns episódios, ver a série tendo Hamlet como pano de fundo é por demais interessante, seja no que se assemelha, seja no que se afasta.
Estou a ler, entre outras coisas, os contos de Flannery O'Connor. Em meio a seus personagens grotescos e trágicos, encontro muito de redenção e beleza. E eu costumo escrever algo sobre minhas leituras em outro canal, o Medium.
Neste caso, do conto A vida que você salvar pode ser a sua, escrevi dois textos (Parte 1 e Parte 2). Reproduzo aqui o segundo deles, pois, embora um tanto off-topic, tem muito a ver com o motociclismo em mim.
Ademais, a pandemia nos tem deixado a todos bastante inativos. Faz-me bem movimentar um pouco este blog, mesmo que não me mate a saudade de rodar.
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Posso cá pensar em um ou dois aspectos aos quais poderíamos ser levados por este conto de O’Connor, eu dizia. E cá estou realmente a pensar em um destes aspectos.
Pois, se “é curioso como os automóveis costumam ser personagens dos contos de Flannery”, devo dizer que, neste caso, o automóvel bem poderia ser minha Harley Davidson.
É bem comum no meio motociclístico o apelo à liberdade. É um apelo comum e bastante piegas, geralmente, exceto por algumas poucas peças como a da ilustração abaixo.
E é piegas não pelo apelo à liberdade em si, afinal, ainda que o homem não saiba bem o que ela significa, é um anseio legítimo. Mas é piegas porque, em não sabendo bem o que significa “liberdade”, o apelo é algo tão vago, etéreo, abstrato, que não significa nada realmente senão uma desculpa para falar de moto.
Bem, é lá uma boa desculpa, devo confessar. Mas passar das peças publicitárias a textos (e vídeos) do tipo “why I ride” é algo muito mais compensador. Esbocei meu próprio “por que ando de moto” nos termos que seguem:
“Mas que tem isso com o conto?” — talvez algum leitor apressado há de perguntar. “Tudo, meu caro, tudo!” — eu prontamente responderia, acrescentando que estou a imitar a própria O’Connor a dar spoilers de mim mesmo logo ao começar a escrever.
Desde o começo do conto saltam aos olhos a cruz torta e o automóvel. O Sr. Shiftlet tem um nome que pode sugerir mudança e esta mudança bem poderia ser a de marchas. Ele sempre desejou um automóvel — foi nos dito — e olha comprido para ele desde que chegou ao terreno da Sra. Crater. E ele o terá.
Primeiro, porém, é preciso dizer o que ele diz:
Minha senhora, o homem se divide em duas partes, corpo e espírito. (…) O corpo, sabe, é como uma casa: não vai a lugar nenhum; mas o espírito é como um automóvel, está sempre em movimento, sempre… (…) Só estou dizendo é que o espírito de um homem é mais importante para ele do que qualquer outra coisa. (…)
Talvez haja aí algum resquício daquela ideia de que o corpo é uma prisão para a alma. Mas eu penso que esta dicotomia retórica não serve a isso. Serve, antes, para nos lembrar de Mateus 10:28:
Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.
Ou de Mateus 16:26:
Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?
Ah! É fundamental que o homem cuide de seu espírito ainda mais do que cuida de seu corpo. Num porvir ele terá ambos, mas é aquela, não este, o que determinará o estado de ambos.
Ora, o espírito foi criado para ser livre. Não para se libertar do corpo, nem para se libertar de prisões para o corpo, mas para aquela verdadeira liberdade que apenas o Filho pode conceder (Jo 8:36).
Olhar para o Ford 1928–1929 é olhar para a minha Sportster 2007. Não como um bem em si, nem mesmo como o conforto, a dádiva que é, mas para o que representa, para o que prepara no espírito, como o pretexto para o prazer da Presença.
É como um prazer que remete a um maior. Um “já, mas não ainda”. Como uma satisfação que em si é insatisfação. É como repetir com Lewis:
Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que fui feito para um outro mundo.
Ou com Agostinho:
Grande és Tu, Senhor, e sumamente louvável; grande é a Sua força, a Tua sabedoria não tem limites! Ora, o homem, esta parcela da criação, quer Te louvar, este mesmo homem carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho do seu pecado e como o testemunho de que resistes aos soberbos. Ainda assim, quer louvar-Te o homem, esta a parcela de Tua criação! Tu próprio o incitas para que sinta prazer em louvar-Te. Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti.
Olhar para minha Harley Davidson assim é preparar meu espírito para a verdadeira liberdade que então será completa. É uma carruagem que me prepara para outra, quando enfim enfrentarei o Jordão. Quando, qual com Elias, um redemoinho será o motor desta carruagem. Quando, qual com o Sr. Shiflet, a tempestade varrerá o que ficou para traz.
Desce, minha carruagem. Para e me deixa subir. Vem e me leva ao lar, para a verdadeira liberdade, para junto dEle. E enquanto me leva, minha carruagem, vou cantando:
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry he home
I looked over Jordan and what did I see
Coming for to carry he home
A band of angels coming after me
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
If you get there before I do
Coming for to carry me home
Tell all my friends I’m coming too
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
Louvado seja Ele!
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“A vida que você salvar pode ser a sua”. Em: O’CONNOR, Flannery. Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.