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Roberto Vargas Jr.
Um cristão em busca de algo mais que respostas prontas. Sou casado com uma linda e meiga mulher chamada Raquel e pai de um pequeno e travesso menino chamado Lucas!
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Para "ter meus pensamentos em ordem", criei este blog. É um solilóquio, de fato. Mas um que já se tornou em vários diálogos interessantes e que me fizeram crescer muito. Comentários, por isso, são bem vindos. Não apenas para saber que meu texto foi lido, mas, e principalmente, para que meu pensamento melhore. Sim, eu aceito elogios e preciso também da crítica. Peço sua ajuda nisso, caro leitor.

Para maiores detalhes do que eu tinha em mente quando da criação do blog, visite: Apresentação (ou Das razões deste blog). E seja bem vindo!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sobre o aborto 3

Eu fiquei pensando muito se deveria postar o artigo anterior como postei. A imagem do feto abortado não é apenas uma imagem forte. É a imagem de um ser humano sem vida. Não pode haver qualquer mórbido prazer em expor essa imagem. O objetivo é chocar. Mas é para se manter respeito.

Mas pensei em incluir a foto, pois não conhecia o vídeo Um grito silencioso.  O Danilo Neves deixou a indicação dele nos comentários da postagem anterior. Por isso reproduzo seu comentário integralmente (editado):

Danilo Neves deixou um novo comentário sobre a sua postagem “Sobre o aborto 2”:

Tenho as minhas restrições com o Malafaia, mas ele, no geral, mandou muito bem sobre esse assunto ao debatê-lo no programa Canal Livre (Band). Seguem os links:

Já o próximo link são imagens do mais emblemático vídeo sobre o aborto, “Um grito silencioso”:

Abraço, irmãos!

Apesar de agora saber do vídeo, creio que a imagem ainda possa causar o impacto que, ao que me parece, é necessário a este assunto. O vídeo, para quem assistir, o confirmará.

Quanto ao Malafaia, faço a mesma ressalva que o Danilo. Acrescento apenas que não haveria necessidade de chamar a atenção para o livre-arbítrio, mas apenas para a responsabilidade. Porém, por outro lado, as mentes não redimidas seriam incapazes de entender a responsabilidade sem liberdade. Eu também tenho certas reservas ao uso de estatísticas e informações científicas como “provas” de assuntos que não são científicos. De todo modo, como aponta o Danilo, ele mandou muito bem!

SDG!

domingo, 29 de novembro de 2009

Sobre o aborto 2

Veja a notícia a seguir:

Ex-diretora de clínica de aborto descreve ter assistido à luta de um bebê em gestação antes de ser abortado
Por Kathleen Gilbert

BRYAN, Texas, EUA, 9 de novembro de 2009 (Notícias Pró-Família) — Abby Johnson, ex-diretora de clínica de aborto da Federação de Planejamento Familiar (FPF) que largou seu emprego durante esta recente Campanha 40 Dias pela Vida, descreveu neste final de semana para o entrevistador Mike Huckabee, da TV Fox News, sua experiência de conversão, que ocorreu depois de assistir à luta de um bebezinho em gestação para escapar do aborto a vácuo que acabou tirando sua vida.

O testemunho de Johnson havia recebido ampla atenção desde sua conversão dramática no mês passado na clínica da Federação de Planejamento Familiar de Bryan, Texas — o lugar em que nasceu a popular campanha de oração 40 Dias pela Vida cinco anos atrás.

Johnson diz que recebeu sua primeira oportunidade de testemunhar um aborto quando assistiu a um raro aborto guiado por ultra-som. Enquanto ela estava assistindo ao vídeo de ultra-som, ela diz ter distinguido o perfil da face do bebê de 13 semanas de gestação.

“Vi um perfil completo. Por isso, vi da face aos pés na máquina de ultra-som”, disse Johnson. “Vi a sonda entrando no útero da mulher, e naquele momento vi o bebê movendo e tentando se afastar da sonda”.

“E pensei: ‘Ele está lutando para sobreviver’”, disse Johnson. “E pensei: ‘É vida’. Quero dizer, ele está vivo… Minha mente estava pensando rapidamente, meu coração estava batendo rápido, e eu só estava pensando: ‘Oh, meu Deus, faça isso parar!’ Então de repente estava tudo terminado. Eu vi o bebê acabar de ser despedaçado, e estava tudo terminado”.

Johnson comentou que a imagem da criança a fez lembrar a imagem de ultra-som de sua própria filha de 12 semanas de gestação.

“Se os funcionários de clínicas vissem o que estava acontecendo na tela, eles correriam para fora dessas clínicas”, concluiu Johnson. “É isso o que a indústria do aborto não quer que seus funcionários vejam… eles não querem que as pessoas vejam o que está realmente acontecendo no útero da mulher”.

Apenas ler uma notícia como esta que Julio Severo divulga em seu blog talvez não seja suficiente. Apenas ler talvez não nos mova a tomar uma posição. Pois as letras ainda são algo distantes de nós. Talvez devêssemos todos passar pela experiência chocante que Abby passou. Não repeti-la, mas talvez o vídeo devesse ser divulgado. Justamente para chocar. Justamente porque “emoções e experiências individuais podem ser muito mais convincentes que todos os argumentos do mundo”!

imageAquela minha amiga que faz enfermagem fez um trabalho sobre o assunto e na sua apresentação diz: “Um feto de apenas um mês ao ser perseguido por algum objeto introduzido dentro do útero tenta desesperadamente fugir, mas não tem escapatória. Seus movimentos e a aceleração de seu pulso são sinais não só de que está vivo como também de seu instinto de sobrevivência”. Não sei qual sua fonte para tal afirmação, mas veja a foto ao lado, de um feto abortado com cerca de 8 semanas. Você duvida do que Abby e minha amiga dizem?

Na falta do vídeo, talvez esta foto ajude a ter idéia do que estamos falando. A apresentação de minha amiga tem fotos e informações ainda mais chocantes. Seria bom que nunca fosse necessário mostrá-las!

Apenas mentes já cauterizadas pelo imediatismo e individualismo do nosso século são capazes de se manter alheias ao valor humano. Como eu disse antes, é irônico que seja o humanismo o que gere estas mentes e este alheamento. Não estejamos nós com mentes cauterizadas e alheias!

SDG!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O deus relacional

Eu estava conversando com o Helder e ele me fala de um texto de um blog alhures. Foi interessante para mim porque, embora já tenha visto tal coisa como conseqüência do (não-)pensamento de qualquer cosmovisão que fale de um deus que não é Deus porque limita os atributos desse deus, eu nunca tinha visto uma defesa tão aberta de um deus limitado em seu conhecimento. Sim, havia algo nas entrelinhas no que havia lido até ali, mas sempre em meio a certos escrúpulos em se falar do Deus das Escrituras, não se falava tão declaradamente de um outro deus.

Toda a argumentação do indivíduo é internamente coerente, ainda que um tanto pueril. O interessante é que é tanto mais pueril quanto mais coerente. E tanto mais contraditório quanto mais coerente! Em outras palavras, ele é coerente na superfície, mas não em seus fundamentos. Isso porque ele se dá conta das implicações do que diz e as assume, com todas as necessárias contradições em que seu discurso incorre. Exemplo? O de sempre: nega-se o conhecimento, mas afirma-se uma infinidade de proposições, nega-se a lógica, mas a utiliza, nega-se o Deus absoluto das Escrituras, mas insiste-se em usar as Escrituras para falar num deus que é apenas homem-bom-elevado-a-enésima-potência, e assim por diante...

Sei que farei uma caricatura a seguir e, embora não goste delas, falarei de um modo tão geral que a caricatura se torna inevitável. Pois não é sobre essas contradições fundamentais que gostaria de falar, mas desta defesa aberta de um deus limitado em seu conhecimento que eu ainda não tinha visto. Porque isso me fez pensar numa comparação.

Os ateus dizem não haver deus, os agnósticos têm dúvida e os deístas pensam haver um deus que deu corda no mundo e o deixou para si mesmo. Na prática, todos vivem como se Deus não existisse. Pois bem, os teístas abertos ou relacionais são deístas que pretendem viver como se Deus existisse. Porém, sendo o deus deles aquele homem-bom-elevado-a-enésima-potência, falham no que se propõem. Pois o seu deus continua a ser apenas um criador. Um criador que talvez seja onipresente, mas é ignorante e incapaz.

Então, com um tal deus, eles iniciam aquele discurso do deus todo-amor e do conforto que esse deus traz. Talvez haja mesmo conforto aos ouvidos de pecadores que querem se manter “livres” em sua pretensa autonomia. Talvez haja conforto para eles ter um deus à sua imagem. Mas de que adianta o amor infinito e incondicional de um deus que não conhece e é incapaz? Se ele não é absoluto não pode ser ponto de referência de nada. Não pode ele dizer qual é o destino terreno dos homens nem o eterno, pois não sabe. Nem pode levá-los a uma bem-aventurança eterna, pois é incapaz. Este deus não é capaz de me prometer nada, seja céu, seja inferno, seja mesmo um conforto no tempo. E, assim, o deus relacional do teísmo aberto em nada se diferencia do deus do deísmo.

Não a este deus, mas ao Deus Absoluto, Eterno, Todo Poderoso, Onisciente, Onipresente, Infinito, Imutável e Soberano, ao Deus Triúno que Se revela nas Escrituras seja todo meu louvor e adoração, e nEle repouse a minha esperança e meu conforto.

SOLI DEO GLORIA!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Espiritualidade e Dinheiro

Por Igor Miguel, publicado originalmente em Pensar...

Em um mundo em que o poder financeiro é um ídolo, para uma pessoa que queira manter sua espiritualidade integrada com seu estilo de vida, é fundamental fazer uso de alguns princípios. Diferente do que muitos podem imaginar, não vou escrever sobre 10 passos para ficar milionário, 7 princípios para acumular tesouros ou 666 dólares para virar uma besta quadrada. O que proponho neste breve post é expor alguns princípios éticos, que pessoalmente adoto, para lidar com a dimensão financeira da vida sem tornar o “dinheiro” e o “consumo” ídolos.

Antes de tudo, digo princípios, pois diferente do que comumente ouve-se, o salvo procura uma vida de justiça, não para se justificar, pois a justificação dá-se pelos vínculos de fé com Cristo, e a salvação é exclusivamente por graça. Neste sentido, a teologia reformada é muito elucidativa.

Porém, o salvo continua no mundo e em constante conflito com os ídolos de seu tempo, sendo assim, a experiência da salvação traduz-se em missão ou na linguagem paulino-reformada, vocação.

A ideia de vocação tem raízes no “chamamento” de Israel, a teologia de Paulo é derivada de uma tradição anterior. A presença de uma nação livre da escravidão (Egito), envolveria algum tipo missão. A libertação não é só “de”, mas principalmente “para”. Este “para” fala de um “fim”, de um “propósito”, ou em grego um “télos”.

A salvação é pela graça, mas a atuação do salvo, seu papel vocacional, envolve tornar-se “servo da justiça” (Rm 6), o que significa que a atuação do vocacionado pode ser iluminada pela lei, daí o conceito de teonomia* tão propalado por teólogos reformados, que pode ser definido como:

[...] Teonomia é a legislação inspirada por Deus, estabelecida em sua soberana lei da criação... A peculiaridade do Calvinismo é a ideia de que Deus é Senhor e o legislador de todos os homens. Esta ideia pode ser encontrada em Calvino, em sua percepção da vida cristã, quando disse: “nós somos propriedades de Deus, e não somos proprietários de nós mesmo”, e “deixe a Sua vontade, então, ser a influência fundamental sobre todos os nossos atos”[...]**

O homem precisa abordar as coisas e o seres da criação segundo princípios da soberania de Deus. Uma relação desorientada, pode conduzi-lo a uma experiência de “apropriação” que é idólatra. A lei regula a relação do salvo com o mundo criado, ela evita o ascetismo, que priva o homem dos desafios das bençãos do mundo criado, mas também, o protege de um apego idólatra. A lei deixa claro, quem é criatura, criação e quem é o Criador. Este é um princípio ético do calvinismo muito próximo da abordagem dos judeus chassídicos da Europa no século XVII.

Então quais princípios “teonômicos” podem ser aplicados na relação do salvo com o dinheiro?

Segue uma sugestão, são princípios que me orientam neste sentido:

  1. O dinheiro não pode se tornar um ídolo, Mamom não pode ter primazia sobre Cristo;
  2. O dinheiro é meio e não fim;
  3. O dinheiro deve prestar um serviço à vida humana e não um de-serviço, o que significa que brigas, discórdias, avareza e outros, não podem existir na vida de um cristão, se isso acontecer, o dinheiro é um ídolo a ser quebrado;
  4. Imagine-se sem dinheiro, imagine-se lesado, se isto lhe causa algum desespero, ou passa pela cabeça abandonar a Deus por causa disso, o dinheiro é um ídolo, quebre-o;
  5. Não é o dinheiro que te sustenta, mas Deus. Ele o fará como quiser, com dinheiro, com maná, com trabalho, como ele quiser.
  6. Meu sustento não vem do meu trabalho, vem de Deus, que pode usar o trabalho para este fim;
  7. Trabalhe porque é mandamento trabalhar, o trabalho é um culto, sendo assim o faça com diligência, criatividade e dedicação, o que vem não é resultado do trabalho, mas é graça de Deus. É mandamento “seis dias trabalharás”!
  8. Não lide com o dinheiro como proprietário, mas como “gestor”, “administrador”, faça uso inteligente, mas lembre-se que a relação de “posse” é idólatra, o princípio bíblico é de “hospitalidade”, tudo que desfrutamos de Deus é por “graça”, a graça do anfitrião;
  9. Não se encante com os produtos na vitrine, use roupas simples, compre um carro popular, ande de bicicleta, compre uma casa simples. Crie um equilíbrio entre “dignidade” e “modéstia”. É possível viver uma vida de qualidade, com um bom café da manhã, sem ter o melhor carro, a melhor casa, etc. Economize!
  10. Doe, seja generoso, doe sem limites. Dê o quanto o Senhor o mover para isso.

Esses são princípios que procuro viver, que regulam meu comportamento e minha forma de ver o mundo e as riquezas. Há outros princípios secundários, mas sem dúvida, se você elaborar uma lista de princípios você será iluminado com a “lei da liberdade” e não com a “autonomia” vendida pelo ocidente. Somente o salvo em Cristo pode desfrutar da liberdade da lei. Esses princípios poderiam ser recheados de referências bíblicas, mas nascem de um ethos judaico-cristão, de uma cosmovisão fundamentalmente monoteísta.
_____________
* Teonomia: Do grego theos (Deus) + nomos (lei).
** Geesink, William (1931) (in Dutch). Gereformeerde ethiek. Kampen. p. (pages unknown).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Um jogo de palavras: o conhecimento sinergístico de Brian

Há coisas que não consigo fazer. Eu tenho, por exemplo, dificuldade em ler textos que, mesmo inteligentes, possuem axiomas falsos. É simplesmente irritante. Isso faz com que vários livros que devo ler permaneçam na estante, à espera de uma paciência que reluta em chegar…

Mas há coisas que eu absolutamente  não consigo fazer. Ler coisas idiotas ou sem sentido é uma delas! Quando pego um texto e ele começa a ser ridículo ou irracional, logo o jogo de lado, e nunca mais lhe dou a atenção. Mesmo assim, somos confrontados com este tipo de textos o tempo todo!

Um amigo me sugere olhar um blog. Ele me conhece e diz que vou me irritar, sendo esse o próprio objetivo dele: mostrar-me algo irritante. Como sou curioso, lá vou eu olhar e ler a sugestão. Não vou mencionar o nome do blog porque não vale a pena. Acredito que nem precise. Mas, de todo modo, não é algo que eu gostaria de sugerir a ninguém. O texto que leio lá é de Brian Mclaren, retirado de A Igreja do Outro Lado:

Aquilo que as pessoas pós modernas tendem a rejeitar não é a verdade absoluta, mas o conhecimento absoluto. E à medida que buscamos defender o conhecimento absoluto, nos mostramos defensores não da fé bíblica (que repetidamente afirma que “conhecemos em parte”), mas do racionalismo moderno (que demonstra uma confiança exacerbada em seus poderes autônomos de conhecimento que é difícil de enxergar).

Ter um universo repleto de verdade absoluta, mas um mundo cheio de pessoas incapazes de compreendê-la ou comunicá-la com absoluta exatidão é quase – mas não exatamente – o mesmo que não ter nenhuma verdade absoluta.

Além disso, quando as pessoas pós-modernas ouvem o adjetivo “absoluta” depois da palavra “verdade”, elas pensam nos norte-americanos brancos e racistas para quem era uma verdade absoluta o fato de que os povos indígenas e os negros eram inferiores, talvez sub-humanos. Elas pensam nos nazistas, para quem era uma verdade absoluta a necessidade de que os judeus fossem exterminados. Elas Pensam nos industriais para quem é uma verdade absoluta que o meio ambiente existe para dar lucro, não para ser conservado. Elas pensam nos políticos de hoje, para quem é uma verdade absoluta que encontraremos paz promovendo mais guerras.

Ao não conseguir enxergar essas preocupações válidas das pessoas pós-modernas,muitos cristãos na atual zona de transição continuam batendo o tambor da verdade absoluta e, quanto mais forte batem, mais primitiva, irracional e desesperadamente modernos eles parecem ser; francamente, penso que o termo verdade absoluta perdeu a sua utilidade.

Citei todo o texto porque ele todo é absurdo e o leitor poderá ter idéia de como é o não-pensamento de McLaren. Mas vou falar só da primeira proposição. Ela é suficiente para dizer muito, embora eu tente ser breve no que direi a seguir…

Aquilo que as pessoas pós modernas tendem a rejeitar não é a verdade absoluta, mas o conhecimento absoluto.

A noção de conhecimento está intimamente ligada à de verdade. Conhecimento é, de forma clássica, definido como crença verdadeira justificada. É impossível separar o conhecimento da verdade, portanto. Pois se se conhece algo, este algo deve ser verdadeiro. A tentativa de mudar o foco é inócua. Mas cedamos. Finjamos que é possível mudar o foco e analisemos o que ele diz. Reduzamos a proposição para aquilo que ele efetivamente quer dizer, sem rodeios e sem eufemismos que são apenas possíveis rotas de fuga (dada pelo “tendem”, por exemplo[1]):

As pessoas pós-modernas rejeitam o conhecimento absoluto.

Que está ele a dizer? É esta sua proposição algo que ele conhece? Bem, supomos que sim, caso contrário, de que adiantaria ele dizer tal coisa? Se conhece, conhece absolutamente? Ele terá por obrigação, se quiser ser coerente, dizer que não. Mas se não é um conhecimento absoluto, que sentido ela tem? De um conhecimento relativo? Relativo a que? Se não é um conhecimento absoluto, quando a proposição expressa a verdade? Sempre? Então é autocontraditória por ser absoluta. Às vezes? Então quem me garante que ela tenha validade quanto a ela própria?

Não há garantia alguma, pois não há nada que seja um conhecimento absoluto que possa lhe ser um fundamento. Será que as pessoas abandonaram completamente o juízo e o bom senso? Tudo que Mclaren diz não é raciocínio, não passa de um jogo de palavras. E de palavras sem significado. Tudo é um discurso vazio. Tudo é completamente ilógico, é absolutamente irracional. Ninguém que realmente pense pode aceitar uma coisa dessas!

Mas o caso é que essas pessoas que repetem as palavras de McLaren, ou de outros que se assemelham a ele, essas pessoas dizem pensar. E, talvez não digam, ou não digam assim, mas, assim como os gnósticos desde há muito, tomam ares superiores de quem possui um esclarecimento, uma luz que os demais não podem alcançar. Porém…

Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos! (Is 5.20-21)

Se alguma mente ainda têm, que voltem a pensar! Para seu próprio bem. Pois estes que assim falam tão loucamente, estes que assim se comportam tão insensatamente, eles se esquecem completamente que a Revelação é proposicional e é racionalmente que a fé assente às proposições. Esquecem-se que somos imago Dei e isso significa, entre outras coisas, ser imagem do Logos. Esquecem-se que é o conhecimento da Verdade o que os pode libertar!

Eu porém conheço a Verdade. E a Verdade é Absoluta. Meu conhecimento dEla pode ser incompleto. Mas aquilo que conheço, conheço absolutamente, pois a Verdade não Se dá a conhecer como algo menos do que Ela é! Louvado seja o Deus que Se revela!

SOLI DEO GLORIA!

………………………………………………..

[1] Aqui ele pode dizer que é apenas uma tendência do pensar, que o que eles têm em mente não é bem isso. Ora, pelo jeito McLaren não é desprovido de alguma inteligência e já percebeu a inconsistência da sua própria afirmação. Então dá um jeitinho de escapar assim que for acusado seu absurdo “raciocínio”. Isso é, para dizer o mínimo, desonestidade intelectual.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Gettier e minha ignorância

A propósito do artigo de Gettier, abaixo, talvez eu não faça mais do que revelar minha imensa e grotesca ignorância. Porém, tenho grande dificuldade em aceitar que seus contra-exemplos estejam de fato a dizer algo. Sempre quis questionar isso a alguém, mas não tive professores que me pudessem responder. Vejamos os dois casos:

Caso I

Gettier diz que: 1) e é verdadeira, 2) Smith acredita que e é verdadeira e 3) Smith está justificado a acreditar que e é verdadeira.

É difícil aceitar que e tenha o significado dado por Gettier. Pois é difícil aceitar que e simplesmente seja a crença de Smith. Ele não apenas crê que um homem com dez moedas no bolso terá a vaga. Ele crê que este homem é necessariamente Jones. Ou seja a crença de Smith é que o homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso se, e somente se, este homem for Jones. Sua crença não se amplia a qualquer homem que tenha dez moedas no bolso. Assim, não é bem em e, conforme coloca Gettier, que Smith crê, pois, para Gettier, o homem de e é um homem qualquer. Se não é em e, no sentido pretendido por Gettier, que Smith crê, tudo o mais fica sem sentido. Entendo que Smith realmente não tem o conhecimento de e, tenha homem o sentido de Jones (pois, embora justificado, não é verdadeiro), tenha o sentido de um homem qualquer (pois, embora a proposição, como posta por Gettier, seja verdadeira, não é a crença de Smith). Não estamos a tratar de CVJ, portanto.

O contra-exemplo se utiliza de um termo dúbio. Mas bem pode ser que haja uma formulação em que essa dubiedade não seja óbvia. Isso poderá ser visto nas notações lógicas. A proposição e é a conclusão de um silogismo:

i. O homem que vai conseguir o emprego é Jones: A->B
ii. Jones tem dez moedas no bolso: B->C
iii. O homem que vai conseguir o emprego tem dez moedas no bolso: A->C

A crença de Smith é em i e ii. A conclusão de seu raciocínio, iii, é totalmente dependente da crença nestas premissas. Não haveria a crença na conclusão sem elas. Assim, sendo qualquer uma das premissas falsas, sua conclusão é falsa, pois não pode ser conseqüência do raciocínio que realizou. Além disso, sua crença é também na identidade entre A, B e C. Ou seja, sua crença é em AˆBˆC, não em AˆC somente. E, sendo qualquer das proposições falsa, falsa é a conjunção.

Assim, ao mencionarmos e ou iii, não fico convencido que estejamos falando de fato em e ou iii, ou que o caso seja de CVJ.

Caso II

Gettier diz que: 1) h é verdadeira, 2) Smith acredita na verdade de h e 3) Smith está justificado a acreditar na verdade de h.

Bem, neste caso, h é mesmo verdadeira, pois isto foi imposto por Gettier pela verdade de que Brown está em Barcelona e não há conotações dúbias nos termos. Aqui é tudo mais sutil, e não sei se conseguiria mostrar o porque da minha dúvida por meio do próprio contra-exemplo. Melhor é utilizar-me diretamente das notações lógicas.

i. Jones tem um Ford: P
ii. Jones tem um Ford ou Brown está em Barcelona: PˇQ

A disjunção ii é verdadeira se P ou Q ou ambas sejam verdadeiras e falsa apenas se ambas são falsas. A conclusão de Smith de que ii é verdadeira vem do fato de que ele crê em i. Depende completamente disso e, se Smith viesse a saber que está enganado quanto a i, abandonaria ii imediatamente. Sua crença, portanto, não é em ii, mas em iˆii. Assim, repito a mesma dúvida que tive no caso I. E, portanto, do mesmo modo, ao mencionarmos h ou ii, não fico convencido que estejamos falando de fato em h ou ii, ou que o caso se seja de CVJ.

Como se vê, em ambos os contra-exemplos, questiono tanto qual seja a própria crença quanto se o processo que levou a esta crença é justificado (Seria uma crença falsa justificadora de uma crença verdadeira? Não me parece razoável). Por isso, acho difícil de entender que Gettier esteja falando de CVJ.

Como disse, talvez eu esteja apenas a revelar minha enorme ignorância sobre o assunto. Não me importo. Gostaria mesmo que algum não-ignorante aparecesse por aqui e me apontasse meu erro. E, eu tendo ou não pensado assim tão mal, que me apontasse o caminho das pedras em epistemologia.

SDG!

CVJ é conhecimento?, por Gettier

Este é um artigo sobre teoria do conhecimento o qual eu vivo tendo por referência. Para facilitar sua busca, resolvi postar aqui (melhor ainda por já ser uma tradução). Assim não precisarei mais buscar em sites alhures…

É a crença verdadeira justificada conhecimento?
Por Edmund Gettier (publicado originalmente em Analysis 23:121-3 (1963), com o título Is Justified True Belief Knowledge?). Traduzido por Célia Teixeira.

Nos últimos anos fizeram-se várias tentativas para estabelecer as condições necessárias e suficientes para que alguém conheça uma dada proposição. Essas tentativas têm sido muitas vezes tais que podem ser formuladas de modo semelhante ao seguinte:

a) S sabe que P se, e só se,

i. P é verdadeira,
ii. S acredita que P e
iii. S está justificado a acreditar que P1

Por exemplo, Chisholm defende que o que se segue fornece as condições necessárias e suficientes para o conhecimento:2

b) S sabe P se, e só se,

i. S aceita que P,
ii. S tem provas adequadas para P, e
iii. P é verdadeira

Ayer apresenta as condições necessárias e suficientes para o conhecimento da seguinte maneira:2

c) S sabe que P se e só se

i. P é verdadeira,
ii. S está seguro que P é verdadeira
iii. S tem o direito de estar seguro que P é verdadeira.

Irei argumentar que a é falsa, pois as condições dadas acima não constituem uma condição suficiente para a verdade da proposição de que S sabe que P. O mesmo argumento irá mostrar que b e c falham se substituirmos “tem provas adequadas para” ou “tem o direito de estar seguro que” por “está justificado em acreditar que”.

Irei começar por chamar a atenção sobre dois aspectos. Em primeiro lugar, se tomarmos “justificado” no sentido em que S está justificado em acreditar que P constitui uma condição necessária para que S saiba que P, então é possível que uma pessoa esteja justificada em acreditar numa proposição que é de facto falsa. Em segundo lugar, para toda a proposição P, se S está justificado em acreditar que P e P implica Q e S deduz Q de P e aceita Q como resultado desta dedução, então S está justificado em acreditar que Q. Tomando em consideração estes dois aspectos, irei passar a apresentar dois casos nos quais as condições estabelecidas em a se verificam para algumas proposições, apesar de ser ao mesmo tempo falso que a pessoa em causa conheça essa proposição.

Caso I

Suponha-se que Smith e Jones se tinham candidatado a um certo emprego. E suponha-se que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposição conjuntiva:

d) Jones é o homem que vai conseguir o emprego, e Jones tem dez moedas no bolso.

As provas que Smith tem a favor de d podem ser que o presidente da companhia lhe tenha assegurado que no fim Jones seria selecionado e que ele, Smith, tenha contado as moedas do bolso de Jones há dez minutos. A proposição d implica:

e) O homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso.

Suponha-se que Smith vê que d implica e e que aceita e com base em d, a favor da qual ele tem fortes provas. Neste caso, Smith está claramente justificado em acreditar que e é verdadeira.

Mas imagine-se que, além disso, sem Smith o saber, é ele e não Jones que vai ficar com o emprego. Imagine-se também que, sem o saber, ele próprio tem dez moedas no bolso. A proposição e é assim verdadeira, apesar de a proposição d, a partir da qual Smith inferiu e, ser falsa. Assim, no nosso exemplo, as seguintes proposições são verdadeiras: 1) e é verdadeira, 2) Smith acredita que e é verdadeira e 3) Smith está justificado a acreditar que e é verdadeira. Mas é igualmente claro que Smith não sabe que e é verdadeira; pois e é verdadeira em virtude das moedas que estão no bolso de Smith, ao passo que Smith não sabe quantas moedas tem no bolso e baseia a sua crença em e no facto de ter contado as moedas do bolso de Jones, que ele erradamente acredita tratar-se do homem que irá ficar com o emprego.

Caso II

Suponha-se que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposição:

f) Jones tem um Ford.

As provas de Smith poderão ser que, desde que ele se lembra, Jones sempre teve um carro, e sempre foi um Ford, e Jones acabou de oferecer boleia a Smith enquanto estava ao volante de um Ford. Imaginemos agora que Smith tem outro amigo, Brown, ignorando por completo o seu paradeiro. Smith seleciona aleatoriamente três nomes de localidades e constrói as seguintes três proposições:

g) Ou Jones tem um Ford ou Brown está em Boston.
h) Ou Jones tem um Ford ou Brown está em Barcelona.
i) Ou Jones tem um Ford ou Brown está em Brest-Litovsk.

f implica cada um destas proposições. Suponha-se que Smith tem consciência de que f implica cada uma das três proposições que ele construiu e que procede à aceitação de g, h e i com base em f. Smith inferiu corretamente g, h e i de uma proposição a favor da qual tem fortes provas. Smith está assim completamente justificado em acreditar em cada uma destas três proposições. Claro que Smith não faz idéia onde está Brown.

Mas imagine-se agora que se verificam mais duas condições. Em primeiro lugar, Jones não teve um Ford, mas andava a conduzir um carro alugado. Em segundo lugar, por uma grande coincidência, sem que Smith soubesse de nada, o lugar mencionado na proposição h é por acaso de facto o lugar onde Brown se encontra. Se estas duas condições se verificarem, então Smith não sabe que h é verdadeira, apesar de 1)h ser verdadeira, 2) Smith acreditar de fato na verdade de h e 3) Smith estar justificado a acreditar na verdade de h.

Estes dois exemplos mostram que a definição a não fornece uma condição suficiente para que alguém saiba uma dada proposição. Os mesmos casos, com as modificações apropriadas, serão suficientes para mostrar que nem a definição b nem a definição c fornecem tal condição.

Notas

  1. Platão parece estar a levar em consideração uma tal definição em Teeteto 291, e provavelmente aceita uma em Ménon 98.
  2. Roderick M. Chisholm, Perceiving: A Philosophical Study (Ithaca, NY, 1957), pp. 16.
  3. A. J. Ayer, The Problem of Knowledge (London, 1956).

Tudo é espiritual de fato!

Hoje pela manhã fui “surpreendido” por esta postagem de Allen Porto, no A Bíblia, o Jornal, e a Caneta:

Tudo é espiritual

Hoje preguei sobre a espiritualidade do cotidiano, ou como a nossa fé precisa estar envolvida no dia-a-dia. Em outras palavras, falei sobre a necessidade de termos uma cosmovisão cristã, e percebermos que tudo na vida precisa ser visto como espiritual, ou precisa estar submetido ao senhorio de Cristo.
Chego em casa, abro leitor de feeds, e descubro um post do Roberto Vargas Jr. perfeito para ilustrar o ponto.
Leiam e vejam como a nossa fé invade os dias comuns, e se manifesta nos eventos mais simples.

“Glória a Deus por cada simples momento. Glória a Deus por dias comuns. Glória a Deus por poder vivê-los”!
Roberto Vargas Jr., no post Um dia comum[1].

É interessante ver Deus nos movendo na mesma direção. A “coincidência” de sua pregação com a minha postagem é daquelas coisas (muito bem vindas a qualquer momento, em especial naqueles dias difíceis) que nos fortalecem a fé e nos estimulam a continuar, qualquer que seja a oposição que venhamos a sofrer!

Bendito seja nosso Deus e Sua bondosa, santa e justa providência!

SOLI DEO GLORIA!

……………………………………………………..
[1] Editei a postagem do Allen, retirando outros links para a postagem deste blog.

domingo, 22 de novembro de 2009

Um dia comum

Neste mundo passamos por aflições. Em meio a elas, no entanto, Deus nos concede alguns momentos de um prazer infindo! Ontem vivi destes momentos. Tudo foi extremamente simples e entremeado de cuidados com a casa e com o rebento. Um dia comum. Mas como é bom viver dias comuns!

Eu poderia deixar de lado, já que é uma atividade e um prazer diários. Mas, primeiro, um bom tempo para ler e meditar. Não há como um dia ser bom sem que haja algum tempo para isso!

Depois: cozinha! Fiquei encarregado de preparar o jantar. Mignon ao molho de gorgonzola e, claro, o preparar e o se deliciar com a refeição sempre acompanhados de bom vinho. Finda a refeição, por sobremesa um cappuccino gelado com licor de chocolate e muito, muito chantilly.

Então nos preparamos para um daqueles filmes românticos que já vimos umas tantas vezes, mas que ainda nos arrancam lágrimas a cada vez que o vemos de novo. Melhor ainda porque ficamos deitados e bem abraçadinhos enquanto as lágrimas caíam!

A noite e sono chegam. Mais um pouco mais de carinho e também uma última pequena leitura… Os olhos vão se fechando e a gratidão a pulsar no coração… Glória a Deus por cada simples momento. Glória a Deus por dias comuns. Glória a Deus por poder vivê-los!

SOLI DEO GLORIA!

sábado, 21 de novembro de 2009

A lógica, ou a falta dela

Talvez isso pareça um assunto de menor importância, mas a mim o fato revela algo deveras preocupante.

Recentemente participei de um concurso. Não, não tenho como projeto de vida a estabilidade do emprego público. Eu certamente prefiro um Estado menor. E certamente gostaria de um que não seja O todo-poderoso Estado. Mas também não sou contra o funcionalismo. Isto é, é claro que há funções que o Estado necessita para funcionar. E alguma oportunidade que valha a pena pode ser tentada.

Mas o assunto não é o Estado. É o concurso. Mais especificamente duas questões dele. Claro que o gabarito divulgado diz que errei estas duas questões. Fosse um erro meu, eu não ligaria. E mesmo que elas fossem anuladas ou corrigidas, não é isso que determinaria que eu passasse ou não neste concurso. O ponto novamente não é este. Melhor mostrar as questões, comentá-las e depois dizer qual é o ponto…

Querida Bruna:

Não consigo lhe entender. Você sempre me disse que procurava um homem honesto, que fosse fiel a você, que jamais desse atenção a outras mulheres. Insistiu tanto nisso que até me impediu de viajar com o pessoal de minha turma de faculdade, com medo que eu me interessasse por outra garota. Acho que você está exagerando em suas preocupações, porque eu sou bem honesto em tudo que faço. Lembra daquela vez em que a gente estava saindo do cinema e eu achei, no banheiro masculino, uma carteira de outra pessoa? Então... comentei com você e fui rapidamente devolvê-la na direção do cinema sem tirar nenhum dinheiro dela, na esperança que seu dono ainda a encontrasse. E quando sua prima Dadá veio me oferecer um emprego em sua firma, cheia de segundas intenções para comigo? Lembra? Eu preferi recusar a oferta em receber um salário melhor, só para evitar atritos com você, para ser fiel a tudo que você é e pensa, pois sei que você acha sua prima muito convencida e interesseira. Minha linda, perceba que eu sou todinho seu. Se analisar bem, sou e sempre serei o amor certo que você tanto procurava em sua vida.

Beijos, Ricardo.

01. Pode-se afirmar que o texto está fundamentado no raciocínio lógico:
a) hiperativo.
b) indutivo.
c) emotivo.
d) dedutivo.
e) permissivo.

02. A resposta da questão anterior justifica-se pela presença, no texto, de um:
a) paralelo intertextual. 
b) silogismo dedutivo.
c) realismo hiperativo.
d) silogismo indutivo.
e) paralelo emocional.

As duas questões são relacionadas e as respostas do gabarito são “d” e “b”, respectivamente. Raciocínio lógico dedutivo? Silogismo dedutivo? Será?

É bem possível encontrar uma dedução na carta. Vejamos! Numa dedução, parte-se de uma proposição geral (universal), para se chegar a uma conclusão específica (uma proposição particular). Qual seria esta dedução contida na carta?

Raciocínio dedutivo (do universal para o particular):

Premissa 1: Ricardo é sempre honesto e fiel.

Premissa 2: Bruna quer um homem que seja honesto e fiel.

Conclusão: Ricardo é o tipo de homem que Bruna quer.

Mas seria essa a intenção da carta? O problema todo é que a dúvida ou as preocupações de Bruna recaem justamente sobre a premissa 1, ela “teme” que ele se “interesse por outras garotas”. Assim, Ricardo argumenta, partindo da experiência de ambos (proposições particulares) para generalizar sua conclusão (numa proposição universal):

Raciocínio indutivo (do particular para o universal):

Premissa 1: Fui honesto e fiel no caso da carteira.

Premissa 2: Fui honesto e fiel no caso de sua prima.

Conclusão: Serei honesto e fiel em todos os casos.

Há tanto dedução quanto indução na carta. Ricardo tem por objetivo tanto provar que é o homem que Bruna quer (por dedução) quanto provar que é honesto e fiel (por indução). No entanto, o ponto nevrálgico da carta é a prova indutiva de que Ricardo é um homem honesto e fiel, uma vez que, se esta falhar, a prova de que ele é o homem ideal para Bruna cai por terra. Em outras palavras, toda a carta de Ricardo tem por principal objetivo provar a premissa 1 do raciocínio dedutivo acima, pois é sobre ela que recai o temor de Bruna. Prova que se dá pelo raciocínio indutivo.

As respostas corretas, se há uma interpretação minimamente decente, são “b” e “d”, respectivamente, pois toda a carta é dependente mais do raciocínio indutivo que utiliza que do dedutivo. Isto é tão básico! Tão simples! Claro que, sendo um concurso, espera-se a anulação das questões e não a correção do gabarito, já que se pode alegar haver dubiedade. Mas, como eu disse, não é o resultado do concurso que interessa…

O que me espanta é que o professor de português que elaborou a questão (acredito ser um  o responsável por ela) não tenha notado seu erro. O que me espanta é que, independente de qualquer treinamento em lógica, o erro é patente a qualquer um que saiba ler um texto. Para responder estas questões basta saber o que é indução e o que é dedução. Entretanto, se o erro ficasse circunscrito ao concurso, pouca preocupação eu teria!

Tenho acompanhado e participado de discussões alhures, como demonstram várias postagens do blog. Fico impressionado com a falta de capacidade das pessoas em ler um texto e entendê-lo. Não é só que não apreendem o que está escrito. Elas tiram do texto coisas que o texto não diz. E, como fez o professor elaborador da questão, elas se atém àquilo que é o menos relevante no texto, fazendo de pontos periféricos o que é mais importante, perdendo completamente o sentido do está sendo dito. E isso tudo para não mencionar a falta de capacidade delas em escrever… Se elas não entendem, menos ainda são capazes de dizer algo que seja de fato inteligível!

Devo admitir que nas discussões dos blogs há textos, seja em postagens, seja em comentários, que, às vezes, possuem um conteúdo mais difícil e profundo. Mas não é o caso da maioria deles. A maioria é simples e básica. A maioria deles não exige um conhecimento qualquer de lógica além daquele que é intuitivo ao ato de pensar! Eu já disse várias vezes que não sou nenhum gênio. Sou mediano tanto na capacidade de inteligir quanto no conhecimento que tenho. Infelizmente, porém, o nível intelectual é tão baixo, tão sofrível, que é capaz de as pessoas acharem que sou mais do que sou. O que é muito triste!

Mas, enfim, o que mais me preocupa nisso tudo é que a Revelação é proposicional. A fé é um assentimento às Verdades reveladas.  Num mundo em que um cara mediano como eu pode ser considerado como algo mais que ele realmente é, não é difícil de entender o porque de tanta rejeição não só da Palavra pelos incrédulos, mas também, e principalmente, das doutrinas da graça, fiéis às Escrituras, por aqueles que se nomeiam cristãos…

Se isso é triste, por um lado, por outro nós, que fomos libertados pelo conhecimento da Verdade, sabedores que é Deus mesmo que redime as mentes (e o homem como um todo), devemos lutar como Seus instrumentos contra esta cegueira voluntária em que os homens se colocam!

Graças a Deus que Sua salvação alcança mesmo as mentes menos privilegiadas, transformando-as Ele mesmo. Glórias eternas a Deus que nos tira das trevas da ignorância e da cegueira que as trevas produzem, levando-nos a ter olhos que vejam Sua maravilhosa Luz. Louvores e adoração infindos ao Deus, ao Logos que Se nos dá a conhecer!

SOLI DEO GLORIA!