Talvez isso pareça um assunto de menor importância, mas a mim o fato revela algo deveras preocupante.
Recentemente participei de um concurso. Não, não tenho como projeto de vida a estabilidade do emprego público. Eu certamente prefiro um Estado menor. E certamente gostaria de um que não seja O todo-poderoso Estado. Mas também não sou contra o funcionalismo. Isto é, é claro que há funções que o Estado necessita para funcionar. E alguma oportunidade que valha a pena pode ser tentada.
Mas o assunto não é o Estado. É o concurso. Mais especificamente duas questões dele. Claro que o gabarito divulgado diz que errei estas duas questões. Fosse um erro meu, eu não ligaria. E mesmo que elas fossem anuladas ou corrigidas, não é isso que determinaria que eu passasse ou não neste concurso. O ponto novamente não é este. Melhor mostrar as questões, comentá-las e depois dizer qual é o ponto…
Querida Bruna:
Não consigo lhe entender. Você sempre me disse que procurava um homem honesto, que fosse fiel a você, que jamais desse atenção a outras mulheres. Insistiu tanto nisso que até me impediu de viajar com o pessoal de minha turma de faculdade, com medo que eu me interessasse por outra garota. Acho que você está exagerando em suas preocupações, porque eu sou bem honesto em tudo que faço. Lembra daquela vez em que a gente estava saindo do cinema e eu achei, no banheiro masculino, uma carteira de outra pessoa? Então... comentei com você e fui rapidamente devolvê-la na direção do cinema sem tirar nenhum dinheiro dela, na esperança que seu dono ainda a encontrasse. E quando sua prima Dadá veio me oferecer um emprego em sua firma, cheia de segundas intenções para comigo? Lembra? Eu preferi recusar a oferta em receber um salário melhor, só para evitar atritos com você, para ser fiel a tudo que você é e pensa, pois sei que você acha sua prima muito convencida e interesseira. Minha linda, perceba que eu sou todinho seu. Se analisar bem, sou e sempre serei o amor certo que você tanto procurava em sua vida.
Beijos, Ricardo.
01. Pode-se afirmar que o texto está fundamentado no raciocínio lógico:
a) hiperativo.
b) indutivo.
c) emotivo.
d) dedutivo.
e) permissivo.
02. A resposta da questão anterior justifica-se pela presença, no texto, de um:
a) paralelo intertextual.
b) silogismo dedutivo.
c) realismo hiperativo.
d) silogismo indutivo.
e) paralelo emocional.
As duas questões são relacionadas e as respostas do gabarito são “d” e “b”, respectivamente. Raciocínio lógico dedutivo? Silogismo dedutivo? Será?
É bem possível encontrar uma dedução na carta. Vejamos! Numa dedução, parte-se de uma proposição geral (universal), para se chegar a uma conclusão específica (uma proposição particular). Qual seria esta dedução contida na carta?
Raciocínio dedutivo (do universal para o particular):
Premissa 1: Ricardo é sempre honesto e fiel.
Premissa 2: Bruna quer um homem que seja honesto e fiel.
Conclusão: Ricardo é o tipo de homem que Bruna quer.
Mas seria essa a intenção da carta? O problema todo é que a dúvida ou as preocupações de Bruna recaem justamente sobre a premissa 1, ela “teme” que ele se “interesse por outras garotas”. Assim, Ricardo argumenta, partindo da experiência de ambos (proposições particulares) para generalizar sua conclusão (numa proposição universal):
Raciocínio indutivo (do particular para o universal):
Premissa 1: Fui honesto e fiel no caso da carteira.
Premissa 2: Fui honesto e fiel no caso de sua prima.
Conclusão: Serei honesto e fiel em todos os casos.
Há tanto dedução quanto indução na carta. Ricardo tem por objetivo tanto provar que é o homem que Bruna quer (por dedução) quanto provar que é honesto e fiel (por indução). No entanto, o ponto nevrálgico da carta é a prova indutiva de que Ricardo é um homem honesto e fiel, uma vez que, se esta falhar, a prova de que ele é o homem ideal para Bruna cai por terra. Em outras palavras, toda a carta de Ricardo tem por principal objetivo provar a premissa 1 do raciocínio dedutivo acima, pois é sobre ela que recai o temor de Bruna. Prova que se dá pelo raciocínio indutivo.
As respostas corretas, se há uma interpretação minimamente decente, são “b” e “d”, respectivamente, pois toda a carta é dependente mais do raciocínio indutivo que utiliza que do dedutivo. Isto é tão básico! Tão simples! Claro que, sendo um concurso, espera-se a anulação das questões e não a correção do gabarito, já que se pode alegar haver dubiedade. Mas, como eu disse, não é o resultado do concurso que interessa…
O que me espanta é que o professor de português que elaborou a questão (acredito ser um o responsável por ela) não tenha notado seu erro. O que me espanta é que, independente de qualquer treinamento em lógica, o erro é patente a qualquer um que saiba ler um texto. Para responder estas questões basta saber o que é indução e o que é dedução. Entretanto, se o erro ficasse circunscrito ao concurso, pouca preocupação eu teria!
Tenho acompanhado e participado de discussões alhures, como demonstram várias postagens do blog. Fico impressionado com a falta de capacidade das pessoas em ler um texto e entendê-lo. Não é só que não apreendem o que está escrito. Elas tiram do texto coisas que o texto não diz. E, como fez o professor elaborador da questão, elas se atém àquilo que é o menos relevante no texto, fazendo de pontos periféricos o que é mais importante, perdendo completamente o sentido do está sendo dito. E isso tudo para não mencionar a falta de capacidade delas em escrever… Se elas não entendem, menos ainda são capazes de dizer algo que seja de fato inteligível!
Devo admitir que nas discussões dos blogs há textos, seja em postagens, seja em comentários, que, às vezes, possuem um conteúdo mais difícil e profundo. Mas não é o caso da maioria deles. A maioria é simples e básica. A maioria deles não exige um conhecimento qualquer de lógica além daquele que é intuitivo ao ato de pensar! Eu já disse várias vezes que não sou nenhum gênio. Sou mediano tanto na capacidade de inteligir quanto no conhecimento que tenho. Infelizmente, porém, o nível intelectual é tão baixo, tão sofrível, que é capaz de as pessoas acharem que sou mais do que sou. O que é muito triste!
Mas, enfim, o que mais me preocupa nisso tudo é que a Revelação é proposicional. A fé é um assentimento às Verdades reveladas. Num mundo em que um cara mediano como eu pode ser considerado como algo mais que ele realmente é, não é difícil de entender o porque de tanta rejeição não só da Palavra pelos incrédulos, mas também, e principalmente, das doutrinas da graça, fiéis às Escrituras, por aqueles que se nomeiam cristãos…
Se isso é triste, por um lado, por outro nós, que fomos libertados pelo conhecimento da Verdade, sabedores que é Deus mesmo que redime as mentes (e o homem como um todo), devemos lutar como Seus instrumentos contra esta cegueira voluntária em que os homens se colocam!
Graças a Deus que Sua salvação alcança mesmo as mentes menos privilegiadas, transformando-as Ele mesmo. Glórias eternas a Deus que nos tira das trevas da ignorância e da cegueira que as trevas produzem, levando-nos a ter olhos que vejam Sua maravilhosa Luz. Louvores e adoração infindos ao Deus, ao Logos que Se nos dá a conhecer!
SOLI DEO GLORIA!