sábado, 28 de novembro de 2020

Lady Day em uniforme de trabalho


Meu amigos já estão tirando sarro porque a coisa fica feia. É feia, amigos, aquiesço. Mas olha, amigos, eu vi suas curtidas naquela rat bike horrorosa, vi suas curtidas naquelas customizações de gosto para lá de questionável... então menos, amigos, bem menos...

Ademais, o baú (em rack destacável) não é uma cara feia (o que é definitivo) nem uma barriga gorda (que exige um longo regime). É um uniforme de trabalho feio que se troca em cinco segundos. Porque o objetivo primeiro é o uso diário ao trabalho.

A propósito, eu detesto mochila nas costas. Fico incomodado demais. Aí carregava uma aranha para grudar a mochila no sissybar. Só que isso, em determinadas paradas, deixa a mochila vulnerável (ou a gente perde a paciência tirando e colocando arara). Mochila não, pois. Para colocar alforges destacáveis é preciso realocar setas. Eu acho as setas realocadas horríveis, e isso é um negócio definitivo. Alforges destacáveis não, pois. Alforges fixos nem pensar, muito menos aqueles destacáveis que precisam de afastadores fixos. Há algumas malas rígidas que poderiam servir. Mas eu acho todas feias. Feias e caras. Feio e caro não, pois. E há alguns baús mais quadrados e pequenos, como o da RK Police, que amenizariam bastante esse "visual motoboy". Mas são caros pacas. Aí não dá porque meu bolso não permite. Então fui nesse Pro Tork feinho mesmo por 75 conto. É feio, mas é barato. (E ainda penso em revestir de vinil para ficar ainda pouco menos "motoboy".)

Pensava também em viagens longas com esse treco. Mas isso eu ainda não sei. Acabou que ficou numa posição que não me dá apoio lombar (nem longe no rack de sissybar nem perto demais no rack de paralama). Isso, no fim, deixou o visual um pouco menos feio que eu esperava (eu esperava perto demais das costas no rack de paralama), mas faz o uso em viagens ser dificultado (sendo que a principal vantagem permanece a estanqueidade).

Ainda há uma solução que, caso eu decida por não usar o baú para viagens longas, pode ser interessante. Há um pequeno baú de bicicleta, baixo, fino e comprido, que, para uso só na cidade, vai diminuir em muito este "visual motoboy". Só que ele custa uns 200 conto (contra 75, lembrem-se).

Bem, agora é usar, ver qual é, e depois tomar as decisões que restam.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

The Cave: a reforma 11 - Expectativas

Essa pandemia deixou muita coisa em stand-by. Não só meu blog, mas vários por aí estão com publicações raras e esparsar. No meu caso, a menina ainda está em cuidados médicos, pelo que nem rodar posso.

Então fiquei com saudade de falar de motos, ou do meu mundo sobre motos, mesmo sem ter o que falar. Ou até teria, já que a Royal Enfield está para lançar um modelo cruiser de 350cc que me parece interessante. Ou ainda sobre as notícias quanto aos rumos da H-D. Mas não me animo a uma coisa ou outra. Então me convém retomar a Caverna por assunto.

The Cave, em sua organização atual.
A Caverna é um tanto mutante em seu interior. Muito devido devido às reorganizações constantes, tentando deixar o ambiente o mais bonito e útil possível. Aliás, eu teria um bocado a falar sobre a organização, não tivesse perdido o fio da meada das publicações. Não importa, posso deixar o passado no passado e falar de alguns planos "para frente".

Estou já, finalmente, reformando as banquetas e colocando uma capa na máquina de costura que minha esposa herdou da avó e me sobrou usar de "prateleira" no barracão. Quero eliminar ao máximo as tranqueiras inúteis de dentro dele, mas algumas são inevitáveis. De todo modo, este "móvel" pode abrigar um frigobar sobre ele no futuro. Não será, portanto, de todo mal.


Um barracão que vi na internet.
Dá uma ideia do que desejo
 fazer para a Caverna.
Mas, em curto e médio prazos, o que está mais me deixando empolgado é o exterior. 

Em breve devo trocar todas as madeiras de duas paredes (as mais visíveis), cobrindo com um forro de pinus. Com o tratamento devido (stain), deve ficar bem mais bonito. Ao mesmo tempo, colocarei uma janela em uma das paredes, no lado em que usarei de garagem para a moto.

A garagem, algo que preciso para ontem, será bem interessante. Já que a inclinação do telhado não é grande, farei uma espécie de pergolado inclinado seguindo o telhado, cobrindo tanto a área de churrasco como prolongando uma lateral em cerca de 1,5m: a garagem. 

Infelizmente não tenho as ferramentas para tentar fazer isto por mim mesmo, então devo contratar alguém para fazer. Assim como um deck sob toda esta área, numa terceira etapa (conforme a grana permitir). No fim, ficará uma área paliativa que bem pode ser definitiva sem parecer aqueles puxadinhos de mau gosto.

Já tenho até um "letreiro"
para o quarto de hóspedes.
Ademais, sempre tivemos a intenção de ter um quarto a mais para receber visitas. O "definitivo" seria derrubar o barracão e construir ambas as áreas, que estou chamando de The Cave (minha área de lazer) e The Cave Inn (o quarto de hóspedes).

Pois bem, se este provisório-definitivo se mostrar atraente o suficiente, como espero que se mostre, talvez The Cave assim possa ser definitiva mesmo. Então, nos fundos dela, eu construiria um chalezinho de madeira. Ora, isso seria, definitivamente, atraente!

Mas estou indo muito longe. Primeiro vamos trabalhar o que está em mãos, o "definitivo-provisório". Depois decidimos os próximos passos do sonho.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Viajar em feriado? Não, obrigado!

Sempre evitei viagens em feriados muito mais para evitar a lentidão do excesso de veículos na estrada do que por qualquer outra coisa.

Neste ano, porém, uma vez que quase sempre morei longe dos meus familiares e uma de minhas irmãs se mudou para o litoral catarinense, e porque não aguento mais o isolamento pandêmico, aproveitei o feriado de independência para visitá-la. Até porque minha mãe mora com minha irmã, e ela está com a idade avançada.

A viagem de ida até que foi relativamente tranquila, apesar da neblina na serra e da falta de sinalização horizontal. Mas a de volta... Fiquei tão assustado quanto horrorizado com os absurdos que vi na estrada:

  • Muitos veículos desnecessariamente lentos na pista da esquerda, forçando outros, paciência esgotada, inclusive eu, a ultrapassar pela direita.
  • Muitos veículos, nos trechos mais lentos ou parados, usando o acostamento como pista. Também ganhando um minuto de vantagem da pista pelas vias laterais de acesso a cidades.
  • Muitas ultrapassagens em locais perigosos ou proibidos (faixa contínua), especialmente dadas as condições climáticas com chuva constante e neblina ocasional.

Vi carros capotados, vi carros presos no canteiro central, e...

Quase no fim da subida da serra, na Rota do Sol, ficamos cerca de duas horas entre parados e andando lentamente. Um acidente, claro. Que ocorreu entre carro e moto, no fim da tarde. Ao passar pelo local, já escuro, vi cobertores a cobrir o que julguei serem dois corpos.

Vi porque não dava para não ver, mas não reduzi para olhar nem fiquei morbidamente procurando contemplar a desgraça. Mas minha esposa viu pouco mais: uma moto sob o carro que, pela posição, nos indicava ter feito uma destas ultrapassagens com condições e local indevidos.

Já estávamos tensos e infelizes por uma péssima viagem quase ao ponto de estragar o prazer da visita aos familiares. Depois disso fiquei destruído. Saber que o acidente incluía uma moto e que, embora não possa haver certeza, a indicação é de que foi a irresponsabilidade alheia que ceifou aquelas vidas (ainda pensava eu serem dois os corpos), isso é arrasador.

Mais tarde soube que o que a posição do carro indicava era o fato (ultrapassagem em condições e local indevidos). Também soube que o piloto estava hospitalizado em estado grave e que a garupa faleceu. Não são dois, mas um, e isto não diminui o horror em nada.

Carro e moto deste acidente.

As estatísticas apontarão números maiores que são menores que o risco que as gentes assumem. E isto é o pior. Se fosse um assumir um risco para si, ruim que fosse, problema de quem foge de vírus para se matar em carro. O pior é o risco de matar quem não tem nada com isso.

Fatalidades acontecem. Mas não vale a pena correr para elas. Devo evitar viagens em feriados com ainda mais intensidade.



quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Abstinência, Sons of Anarchy e um pouco mais de cultura

Sons of Anarchy: O sacrifício digno | by Matheus Yann Muniz | Medium

Por conta da pandemia e de um problema mecânico, estou sem rodar e sem muito a fazer em termos "motociclísticos". Mais por esta abstinência de moto que por qualquer outra coisa comecei a rever Sons of Anarchy.

O interessante é que passei a reparar em coisas que jamais teria reparado antes.

Por exemplo, há um episódio chamado "The Push". Foi traduzido como "A separação". Isso porque Jax força uma separação de Tara. Acontece, porém, que é a partir daí que os Sons se aproximam dos Mayans, que traficam heroína.

Bem, isso me chamaria pouca atenção se eu não curtisse "The Pusher", do Steppenwolf. Ora, "Born to be wild" é clichê e não está no seriado. "The Pusher" também não, mas esta música me informa que o "dealer" tem a erva do amor em suas mãos, enquanto o "pusher" é um monstro desalmado que só traz a morte.

Passei a ter muito respeito a tradutores, pois eles têm um trabalho bastante difícil e, mesmo que falhem aqui e ali, devem muito mais ser louvados que criticados. Mas... é óbvio que "The push" deveria ser "O tráfico".

Mais para frente há um episódio em que Juice, um "porto-riquenho do Queens", tenta se enforcar em consequência de um emaranhado de situações cuja principal razão é ele ser filho de um negro.

Então, enquanto ele, Juice, ou "Suco", se prepara para o ato, começa a tocar "Strange Fruit" (que fala sobre o estranho fruto de corpos negros pendentes de árvores no sul dos EUA) e o nome do episódio é “Fruit for the crows”.

Tudo óbvio. Mas é preciso olhos para ver. Hoje sei um pouco mais do que das outras vezes que vi. Só agora, na quarta visita à série, é que sou capaz de ver o óbvio.

E, além destas referências em alguns episódios, ver a série tendo Hamlet como pano de fundo é por demais interessante, seja no que se assemelha, seja no que se afasta.

Baita! 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Liberdade. A verdadeira!

Estou a ler, entre outras coisas, os contos de Flannery O'Connor. Em meio a seus personagens grotescos e trágicos, encontro muito de redenção e beleza. E eu costumo escrever algo sobre minhas leituras em outro canal, o Medium.

Neste caso, do conto A vida que você salvar pode ser a sua, escrevi dois textos (Parte 1 e Parte 2). Reproduzo aqui o segundo deles, pois, embora um tanto off-topic, tem muito a ver com o motociclismo em mim.

Ademais, a pandemia nos tem deixado a todos bastante inativos. Faz-me bem movimentar um pouco este blog, mesmo que não me mate a saudade de rodar.

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Posso cá pensar em um ou dois aspectos aos quais poderíamos ser levados por este conto de O’Connor, eu dizia. E cá estou realmente a pensar em um destes aspectos.

Pois, se “é curioso como os automóveis costumam ser personagens dos contos de Flannery”, devo dizer que, neste caso, o automóvel bem poderia ser minha Harley Davidson.

É bem comum no meio motociclístico o apelo à liberdade. É um apelo comum e bastante piegas, geralmente, exceto por algumas poucas peças como a da ilustração abaixo.

Image for post

E é piegas não pelo apelo à liberdade em si, afinal, ainda que o homem não saiba bem o que ela significa, é um anseio legítimo. Mas é piegas porque, em não sabendo bem o que significa “liberdade”, o apelo é algo tão vago, etéreo, abstrato, que não significa nada realmente senão uma desculpa para falar de moto.

Bem, é lá uma boa desculpa, devo confessar. Mas passar das peças publicitárias a textos (e vídeos) do tipo “why I ride” é algo muito mais compensador. Esbocei meu próprio “por que ando de moto” nos termos que seguem:

Image for post

“Mas que tem isso com o conto?” — talvez algum leitor apressado há de perguntar. “Tudo, meu caro, tudo!” — eu prontamente responderia, acrescentando que estou a imitar a própria O’Connor a dar spoilers de mim mesmo logo ao começar a escrever.

Desde o começo do conto saltam aos olhos a cruz torta e o automóvel. O Sr. Shiftlet tem um nome que pode sugerir mudança e esta mudança bem poderia ser a de marchas. Ele sempre desejou um automóvel — foi nos dito — e olha comprido para ele desde que chegou ao terreno da Sra. Crater. E ele o terá.

Primeiro, porém, é preciso dizer o que ele diz:
Minha senhora, o homem se divide em duas partes, corpo e espírito. (…) O corpo, sabe, é como uma casa: não vai a lugar nenhum; mas o espírito é como um automóvel, está sempre em movimento, sempre… (…) Só estou dizendo é que o espírito de um homem é mais importante para ele do que qualquer outra coisa. (…)
Talvez haja aí algum resquício daquela ideia de que o corpo é uma prisão para a alma. Mas eu penso que esta dicotomia retórica não serve a isso. Serve, antes, para nos lembrar de Mateus 10:28:
Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.
Ou de Mateus 16:26:
Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?
Ah! É fundamental que o homem cuide de seu espírito ainda mais do que cuida de seu corpo. Num porvir ele terá ambos, mas é aquela, não este, o que determinará o estado de ambos.

Ora, o espírito foi criado para ser livre. Não para se libertar do corpo, nem para se libertar de prisões para o corpo, mas para aquela verdadeira liberdade que apenas o Filho pode conceder (Jo 8:36).

Olhar para o Ford 1928–1929 é olhar para a minha Sportster 2007. Não como um bem em si, nem mesmo como o conforto, a dádiva que é, mas para o que representa, para o que prepara no espírito, como o pretexto para o prazer da Presença.

É como um prazer que remete a um maior. Um “já, mas não ainda”. Como uma satisfação que em si é insatisfação. É como repetir com Lewis:
Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que fui feito para um outro mundo.
Ou com Agostinho:
Grande és Tu, Senhor, e sumamente louvável; grande é a Sua força, a Tua sabedoria não tem limites! Ora, o homem, esta parcela da criação, quer Te louvar, este mesmo homem carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho do seu pecado e como o testemunho de que resistes aos soberbos. Ainda assim, quer louvar-Te o homem, esta a parcela de Tua criação! Tu próprio o incitas para que sinta prazer em louvar-Te. Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti.
Olhar para minha Harley Davidson assim é preparar meu espírito para a verdadeira liberdade que então será completa. É uma carruagem que me prepara para outra, quando enfim enfrentarei o Jordão. Quando, qual com Elias, um redemoinho será o motor desta carruagem. Quando, qual com o Sr. Shiflet, a tempestade varrerá o que ficou para traz.

Desce, minha carruagem. Para e me deixa subir. Vem e me leva ao lar, para a verdadeira liberdade, para junto dEle. E enquanto me leva, minha carruagem, vou cantando:
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry he home

I looked over Jordan and what did I see
Coming for to carry he home
A band of angels coming after me
Coming for to carry me home

Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home

If you get there before I do
Coming for to carry me home
Tell all my friends I’m coming too
Coming for to carry me home

Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home


Louvado seja Ele!

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“A vida que você salvar pode ser a sua”. Em: O’CONNOR, Flannery. Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.