sábado, 3 de dezembro de 2011

É, Soberania versus liberdade de novo!

O Felipe Sabino publicou um novo texto sobre a discussão “Soberania x liberdade”. Não há nada de novo, é verdade. Mas eu gostei porque ele resume bem a posição daqueles que chamo “racionalistas cristãos”. Faz isso no texto todo, mas o resumo do resumo pode ser:

(...) a queixa do arminiano seria algo assim: “Mas se Deus é soberano de maneira exaustiva, então o homem não é livre. Como então ele pode ser responsável pelos seus atos, se é necessário ser livre para ser responsável?” Mas como já dissemos, a premissa responsabilidade implica liberdade é alheia às Escrituras. Em nenhum lugar a Bíblia afirma tal coisa. Logo, não existe tensão na questão da soberania divina e a responsabilidade humana.

Visto que muitos livros já foram escritos sobre o assunto, provando que não existe contradição, mistério ou paradoxo entre a doutrina bíblica da soberania divina e responsabilidade humana, contento-me em reafirmar o que já disse: a Bíblia não afirma que o homem precisa ser livre para ser responsável pelos seus atos. O homem é responsável porque Deus o considera responsável. Ele é o Criador e Governador de todo o universo. A Ele todos devem prestar contas de suas ações. Ponto.

E isso é o bastante para que eu possa dizer onde está minha discordância. Assim como o Felipe, não tenho a intenção de argumentar, nem tão pouco explicar. Apenas quero apontar para as divergências. Não na esperança de que cheguemos a acordo e, talvez, nem para que ao menos possamos “conversar”, mas para simplesmente expor o que penso.

O primeiro ponto sobre o qual discordo é que o fato de que “a premissa responsabilidade implica liberdade é alheia às Escrituras” encerra o caso. Ora, deveria haver então alguma afirmação bíblica categórica de que “responsabilidade não implica liberdade”. Caso contrário, estamos tratando de duas premissas “não bíblicas”, no sentido de que não encontramos a informação categórica via Sola Scriptura.

Pois bem, não havendo afirmação categórica de lado a lado, ainda permanecemos com a questão: onde é posta a responsabilidade humana? Que deriva da soberania divina, em última instância, não há que se discutir. Mas afirmar isso não move um milímetro o tão combatido “mistério”. Dizer que não há contradição e que, daí, temos uma solução racional me soa como enorme ingenuidade. E aqui é onde deveríamos entrar na discussão propriamente dita. Pois, racionalmente, esta solução não convence nem um pouquinho.

Deixando de lado todo debate, como já afirmei não ser minha intenção qualquer argumentação, saltemos ao que penso ser um rumo racionalmente mais promissor: a solução do paradoxo passa pela vontade não livre, mas humana. A vontade que não precisa ser livre para ser nossa, e nossa num sentido que é à parte sem que deixe de ser absolutamente dependente de Deus.

Promissor, mas, como fica bastante claro, sem a pretensão de uma afirmação tão categórica como a de que não há mistério. E há, de fato, um mistério de beleza tal! O ponto aqui, entretanto, e onde quero chegar, é que tanto o rumo mais promissor quanto o ingênuo mantém o mistério, talvez não onde comumente o colocam, mas deslocado para outro lugar. No caso do rumo ingênuo, na verdade, ele não satisfaz nem mesmo como a solução que se apresenta, mas assumindo que uma solução seja, ela me traz mais perguntas que respostas, pelo que fico mesmo, racionalmente, deveras insatisfeito.

E daí também que chega a me dar agonia que quem tem tão em alta conta a razão possa se satisfazer com tão pouco. Posso dizer que, em certo sentido, compartilho com estes racionalistas algum desgosto, mas não desaprovação, quanto a quem cede ao mistério muito rapidamente. E isto só faz desta minha agonia ainda maior!

Também, incomodam-me as abundantes afirmações categóricas de certo tipo (pois não há problemas com qualquer afirmação categórica, só por ela ser categórica). Como ao afirmar que “não existe tensão”. Eu sei, a afirmação está dirigida a que a Palavra não a menciona. Mas, ora, que a Deus não aprouvesse falar sobre a tensão não implica em que ela não exista. Acima disso, no entanto, e falando num outro sentido, a tensão existe, no mínimo, em nossas mentes, uns pensando de um modo e outros de outro, o que faz com que a discussão permaneça. Além de mostrar que devemos desconfiar de nossa razão, mesmo quando redimidos. 

E eu sei, os racionalistas cristãos dizem concordar comigo quanto aos limites da razão. Bem, quanto a isto não posso dizer menos que eles possuem um discurso bastante contraditório. Fato é que afirmamos juntos estes limites, e nisto nos aproximamos. Mas enquanto alguns, pelo limite, acabam por duvidar da própria razão ao ponto do desespero cético, erro que juntos evitamos, outros vão no sentido oposto de acreditar exageradamente nas possibilidades da razão redimida. E aqui me afasto deles.

Para encerrar, resumindo, minha discordância está em que os “escritos sobre o assunto, provando que não existe contradição, mistério ou paradoxo entre a doutrina bíblica da soberania divina e responsabilidade humana” não provam que não existe contradição, mistério ou paradoxo. E, sendo bem sincero, não acho que um cristão precise de tal prova.

A Graça me basta! SDG!

3 comentários:

André disse...

Bom post, caro Roberto!

Faz-me lembrar que, a propósito dessa questão da soebrania e responsabilidade, estou devendo explicações a um bocado de gente, inclusive a você. Aproveito para dizer que não esqueci. Depois que acabar aquela série sobre o outro texto de Felipe Sabino, "O racionalismo dos irracionais", e depois que mudar um pouco de assunto lá no blog para não cansar ninguém, deverei retomar esse ponto.

Enquanto esse momento não chega, só digo que endosso seu presente texto, e que fico muito satisfeito com isso, muito embora não sejamos obrigados a concordar em todos os detalhes. (Apesar de, neste caso específico, eu não ver nada de que discordar.)

Um grande abraço!

Felipe disse...

Roberto,

Obrigado pelo texto. Gostei, mesmo sem concordar. Paradoxo? Acho que não! :P

Um abraço,
Felipe Sabino

zwinglio rodrigues disse...

Roberto, paz!

Acho que afirmar não existir tensão entre SD e LH é uma maneira de tentar aquietar os pensamentos.

Talvez, as muitos textos escritos que "provam" não existir paradoxo, mistério ou contradição, seja extamente a tentativa de encontrar paz mental.

Posso estar errado. Porém, porque não poderia estar certo? Alguém admitirá isso depois de escrever tanto pra "provar" a não tensão?

Como negar que não há tensão nisso: "acabei de comer um pedaço de pizza como sendo um ato determinado por Deus mas também como fruto de minha escolha livre."

Não sou tão exercitado intelectualmente como outros, por isso me embaralho.

Concordo contigo quanto à exigência da presença da premissa “responsabilidade não implica liberdade” nas Escrituras. SE não, o caso não tá encerrado mesmo. Eu usaria esse argumento independente de ter lido seu texto.

Abraços!