Antes de ir...
Até acordar, eu tinha dúvidas se iria a Berlim ou a Leipzig. Eram vários pontos turísticos contra, não outros tantos, embora haja, mas uma cantata. Fiquei com a cantata porque...
Acordei às 11:00. Já eram 12:30 e estava com uma preguiça monstro para dirigir. E cá estava eu a pensar em como matar meus amigos de inveja, um pedido deles próprios, se fazer as coisas assim sozinho é tão desanimador... Mesmo assim, vou-me ao coral. É um coral de meninos e não sei bem o que esperar nem sei se vai haver algum lugar para mim na igreja. Seja como for, sei que abandonar a inércia me mudará o ânimo. E o fim do dia me trará aos lábios louvores.
Indo...
As autobahns são mesmo uma delícia. Estradas planas, sem buracos e velocidade à vontade. Mas fui devagar, para os padrões alemães, a uns 140 Km/h. Fui com a orientação de um GPS, claro. Ainda não tenho noção de direção nesta terra estranha. O brinquedinho me levou a Leipzig são e salvo.
Em Leipzig...
Foi difícil achar lugar para estacionar. Encontrei uma "marronzinho" que lá veste azul e ela não falava inglês, mas se esforçou em me ajudar a entender que eu tinha que encontrar um estacionamento pago. Lá fui eu ao tal estacionamento, bem ao lado da igreja. Demorei um bom tempo para achar lugar, quase ao ponto de desistir. Mas encontrei afinal. Cobri-me e fui ao coral.
Antes, fiquei a olhar em volta. Há aqui o que eles chamam de Christmas Market. É como uma feirinha de Natal, feita nas ruas. Mas aqui é uma feirona e as ruas estavam tomadas de barracas, bolas e outros enfeites de Natal e gente que não se acaba mais. Na verdade, parece mais uma festa junina sem bandeirinhas, mas com mais fogueiras. Não sou muito fã de multidões, mas me decidi a dar depois uma volta no meio do povo, pois no dia anterior fui, com um colega alemão, a um desses Christmas Market e foi bem divertido. Foquei o olhar na igreja e fui ao coral.
Ainda bem que cheguei cedo. Não há tíquetes, mas paga-se ao entrar. Fiquei na fila uns 15 minutos e a porta da Thomaskirche se abriu. É uma igreja com aquela arquitetura tipicamente alemã e, neste caso, isto quer dizer tanto aquela imagem gótica quanto a imagem daquelas casas inconfundivelmente alemãs. Paguei e peguei o programa. Uma boa surpresa logo de cara. O programa incluia mais que a cantata de Bach. Um prelúdio e vários corais. Tudo em alemão, claro, o programa inclusive. Ainda não sabia bem o que esperar. Mas a expectativa aumentava positivamente.
Aguardei uns bons minutos. E enquanto esperava eu olhava o interior da igreja. É uma comunidade luterana, e os vitrais não nos deixam esquecer disso, com as imagens do reformador. O interior é muito bonito, sem imagens de escultura, como era de se esperar, exceto por mais de um crucifixo. E há alguns quadros, que não pude ver com clareza. Pois o que me chamava mesmo a atenção era o púlpito, em lugar destacado no alto e no centro da nave, e os órgãos (sim, eram dois).
E enfim se iniciou o evento com o prelúdio. No órgão. O som de um órgão no teclado chega e me ser irritante. Mas o daqueles tubos é uma coisa completamente diferente. Fiquei maravilhado. Depois tivemos alguns corais e vale destacar que o primeiro deles era de Lutero e os outros de filhos de Leipzig. Gostei muito e só lamento não saber alemão para acompanhar mais que a música.
Depois de alguns corais, uma leitura bíblica, em Jo 1.19-34 (se bem pude compreeender). Então um aperitivo de Bach (BWV 599) e um coral de Lutero. E uma mensagem! Eu não eperava por isso. Eu estava mesmo num serviço de culto sem o saber. Exceto por ser uma mulher, e por não entender mais que poucas palavras soltas (que me fazem acreditar que a mensagem unia o texto lido à cantata de Bach), achei bem interessante.
Talvez, mais que pelo culto ou pela mensagem que eu não entendia, por pensar naquele púlpito elevado... Aquilo deixa claro quem tem o papel central do culto. E não, não é o pregador, mas a Palavra. Pois é só no momento da mensagem que o pregador sobe ao púlpito. Toda outra interação é abaixo dele. Também, ficamos de costas para o "grupo de louvor". O coral, com suas vozes poderosas, muito mais que as dos nossos "artistas", fica em um mezzanino e escondido de quem cultua. O papel destes é posto em seu lugar, e o pregador tem sua responsabilidade destacada.
Fiquei pensando em como são pobres nossas igrejas. Muito por conta da arquitetura e também pela beleza impressa no interior de igrejas como esta Thomaskirche. Mas também por conta da muita vaidade que vemos. E, acima de tudo, pela riqueza de uma liturgia que perdemos. Eu gostaria de mais deste apelo estético (e também de um racional, mas isto é outra história...). E não porque é apelo, mas porque é, de fato, belo.
Então, finalmente, a cantata (BWV 132)! Não tenho como expressar meus sentimentos. Só posso balbuciar que a ária inicial, em soprano, foi belíssima e, repetindo-me, "sim, temos Bach"!
Ah, o coral era de meninos, mas os solistas eram já bem crescidos. E o baixo, um oriental mirrado (sim, eu não pude conter a curiosidade: eu me virei para olhar os cantantes), foi de impressionar por sua voz. E é pena que tudo seja tão rápido. Em uma hora o culto havia terminado.
Depois da cantata...
Ao fim do culto, todos saíram muito rapidamente e eu junto. Fui ao passeio pelo Christmas Market. E, sozinho, foi bem frustrante, ao contrário da noite anterior. Quase ao ponto de eu perder todo o ânimo que o culto e o cultuar me recobraram...
Entrei, depois de um certo cansaço por rodar sem rumo pelas ruas, em um restaurante, bem ao lado da igreja, e que tem o apropriado nome "Brauerei an der Thomaskirche". Com toda sinceridade, o interior do restaurante não me trouxe muito alento. E os pratos não me pareceram tão apetitosos. Mas, dado que os outros restaurantes que vi estão abarrotados e eu não me dou bem com a multidão, arrisquei-me neste, que estava mais "habitável".
E agora devo me confessar: sou um gourmet irrecuperável. Uma boa refeição é capaz de me fazer ganhar um dia. E foi o que me aconteceu. Pedi um filet com gorgonzola (e uma cerveja, claro!). Pensei que seria um daqueles pratos comuns. Mas quando ele veio, surpreendeu-me uma grossa fatia de gorgonzola sobre um grosso filet ao ponto (isto significa "sangrando"). Foi maravilhoso! Fez-me encerrar a visita a Leipzig com ótimas impressões.
Voltando para "casa"...
As autobahns são mesmo uma delícia. Voltei a 180Km/h para o quarto que tenho por minha casa nestes dias. Não porque quisesse fugir do passeio, mas simplesmente porque as estradas são a delícia que são. Cheguei ainda mais rápido do que fui...
Agora, eis-me aqui a escrever este "relatório". Bastante feliz em poder fazê-lo. Ainda acho que não posso causar inveja aos meus amigos, mas menos por estar sozinho que por incapacidade narrativa. Até porque sozinho um cristão nunca fica!
Deixando-os com inveja ou não, o que vale mesmo dizer depois de findo o dia é: "Não vou ter um culto? Como não?"
SOLI DEO GLORIA!
1 comentários:
Legal, cara. Não fiquei com inveja... fiquei feliz.
A Ele a glória.
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